Teatro em Meio Ato
A LUA É DOS NAMORADOS
Paulo Corrêa de Oliveira
(Dois amigos, Anísio e Edgar, se encontram no centro de Campo Grande)
ANÍSIO – Edgar, você caminhando pelo centro de Campo Grande?!… Quanto tempo!…
EDGAR – Pois é, Anísio, vou buscar meu neto que está no curso de inglês.
ANÍSIO – Curso de inglês?…Ele é que está certo! … Os americanos dominam o mundo e, agora, estão cobiçando a Lua.
EDGAR – Cobiçando a Lua, coisa nenhuma! Chegaram lá, e, fincaram a bandeira americana.
ANÍSIO – Sabe, Edgar, eu não acredito nessa história!
EDGAR – Como?… Não acredita?… Em 1969, na Apolo II, Armestrong, Aldrin e Collins chegaram à Lua, e lá, ao pisar no solo, Armestrong falou a famosa frase: “Este é um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade”.
ANÍSIO – Conversa!… Isso tudo foi invenção dos americanos para rebater os russos na chamada Guerra Fria. Tudo truque fotográfico.
EDGAR – Você, Anísio, falando isso, vai passar por ignorante. Você não acompanhou o Artemis II dando a volta na Lua? A televisão mostrou tudo!
ANÍSIO – Estamos na época da Inteligência artificial, império das “fake news”!
EDGAR – Nada disso! … Os Estados Unidos estão antecipando uma nova corrida espacial, cuja nova rival é a China.
ANÍSIO – Porém, me diga uma coisa, por que os astronautas não pousaram na Lua, se já sabiam como fazê-lo desde 1969?
EDGAR – A Artemis II fez história! … Levou seres humanos ao ponto mais distante da Terra. Foram 406 mil quilômetros!… Desvendou, também, a parte oculta da Lua…
ANÍSIO – Não vamos chegar a um acordo!… Você acredita e, eu não acredito nisso. Mas, uma coisa eu digo, essa história tirou a Lua das inspirações dos poetas. Todo o lirismo que a Lua inspirava.
EDGAR – Nisso eu concordo com você!… As coisas mudaram!… Você se lembra quando lá, na Estância Gisele, a gente vivia as canções que nos emocionavam?…
Eu, solando no violão, e você cantando meio desafinado?!… Grande época!…
ANÍSIO – Se me lembro!… Como esquecer aqueles versos que diziam: “mas a Lua, furando o nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão”.
EDGAR – Lembro-me de outra: “E a gente pega na viola que ponteia e a canção é a lua cheia, a nos nascer no coração!”
ANÍSIO – Outra preciosidade: “A Estrela Dalva no céu desponta e a lua anda tonta com tamanho esplendor!”
EDGAR – Voltando para nosso Estado, não me esqueço da gravação de Délio e Delinha cantando: “Nosso amor é comparado com o Sol e a Lua, quando eu chego você vai, e a distância continua”.
ANÍSIO – Eu me recordo das Irmãs Galvão entoando a canção que deveria fazer parte da memória cultural do nosso povo: “Eu sei que você sente falta do luar de Aquidauana”.
EDGAR – Essa é bem antiga!… Nos dias de hoje, Tetê Espíndola canta “Estava escrito nas Estrelas” e, Luan Santana, “Meteoro”.
ANÍSIO – Os poetas de agora abandonaram a Lua. Também, vendo aquela imagem da Lua, uma bola de pedra pesada com crateras e bacias inóspitas, só serviu mesmo para desanimar a inspiração!
EDGAR – Deveríamos cantar como aquela marchinha carnavalesca de 1961: “Todos eles estão errados, a Lua é dos namorados”.
ANISÍO – É!… Vamos torcer para a Lua voltar a comover os poetas e apaixonados, como antigamente!
EDGAR – Anísio, tenho que ir… meu neto deve estar saindo do curso agora.
ANÍSIO – Até mais!…
