Início » VACINAR OU NÃO VACINAR, EIS A QUESTÃO – Teatro em Meio Ato, de Paulo Corrêa de Oliveira

VACINAR OU NÃO VACINAR, EIS A QUESTÃO – Teatro em Meio Ato, de Paulo Corrêa de Oliveira

Teatro em Meio Ato

 

VACINAR OU NÃO VACINAR, EIS A QUESTÃO

Paulo Corrêa de Oliveira

(CANTINA UNIVERSITÁRIA)

(DOIS ALUNOS: BETO E JESSÉ SE ENCONTRAM)

BETO – Você por aqui, Jessé? Nem parece que estamos na mesma universidade!

JESSÉ – Com esse temporal lá fora, Beto, vim fazer hora aqui na cantina.

BETO – Só com a chuva prá encontrá-lo! -Vocês da matemática são muitos dispersivos. Cada um é mais “isentão” que o outro!

JESSÉ – E vocês, da história, são demais de políticos para o meu gosto.

BETO – Estou vindo de uma aula maravilhosa do professor Juarez. Ele falou sobre a Revolta da Vacina.

JESSÉ – É de agora essa notícia? Eu não soube!

BETO – Claro que não soube, Jessé!  A revolta da vacina contra a varíola aconteceu em 1904, no Rio de Janeiro, e durou seis dias.

JESSÉ – Nossa!!! Há mais de cem anos?

BETO – Pois é! O povo se revoltou porque o governo de Rodrigues Alves decretou a obrigação de todo mundo se vacinar, com a orientação do médico Oswaldo Cruz. Daí houve confronto com a polícia.

JESSÉ – É mesmo?

BETO – Houve barricadas. Lojas quebradas. Bondes virados na rua.

JESSÉ – Até parece coisas do dia de hoje, Beto!

BETO – Naquela época, as mulheres se vestiam, cobrindo todo o corpo. Elas também protestavam por serem obrigadas a descobrir os braços para vacinar. Era imoral mostrar os braços nus.

JESSÉ – Que ignorância!

BETO – Nesse período confuso, o prefeito Pereira Passos quis preservar o Rio de Janeiro dos ratos e mosquitos. Resolveu então pagar por cada rato entregue às autoridades. Mas, o brasileiro que não é bobo, começou a criar ratos para vender ao prefeito.

JESSÉ – Eu conheço o brasileiro!

BETO – O presidente acabou voltando atrás e suspendeu a vacinação.

JESSÉ – E daí? acabou? Serenou o clima?

BETO – Acabou nada! Os políticos e os militares se aproveitaram da insatisfação popular para tentar derrubar o governo de Rodrigues Alves. Cerca de 300 cadetes saíram da Praia Vermelha para se apossarem do Palácio do Catete. Só que, no caminho, o governo conseguiu dominar a situação. Foi decretado o Estado de Sítio.

A vacina não ficou obrigatória, mas era exigido um atestado de vacinação para poder trabalhar, estudar ou casar.

No fim da aula, o professor Juarez falou que a vacinação foi uma questão médica, sociológica, cultural, antropológica e histórica.

JESSÉ – Isso tudo me faz lembrar uma guerra que houve, lá em casa, no mês passado.

BETO – Guerra, Jessé?

JESSÉ – Meu tio, que era viúvo, faleceu na fazenda. E seu filho, nosso primo, foi morar conosco.

BETO – Não soube disso.

JESSÉ – Como meu primo veio do mato, meus pais queriam que ele fosse imediatamente vacinado contra a covid-19. Minha irmã, Aurélia, foi contra. Daí começou o bate-boca com meus pais!… – Você se lembra da Aurélia?

BETO – Claro!… Eu encontro com ela, de vez em quando, na loja de saúde alimentar.

JESSÉ – Eu apoiei Aurélia, porque ela foi sempre bem informada de tudo.  Não sai de casa, o dia inteiro, consultando as redes sociais.

BETO – Eu conheço o brasileiro!

JESSÉ – Aurélia dizia que a vacina afetava o DNA. Contava que três médicos de um hospital canadense morreram por terem recebido a quarta dose da vacina.

BETO – É mesmo?

JESSÉ – Dizia que o cidadão tinha o direito de preservar o próprio corpo contra a obrigação de ser injetado por um líquido suspeito.

BETO – E daí? Acabou? Serenou o clima?

JESSÉ – Olhe a janela! …Parece que a chuva acabou.

BETO – Você não sai daqui sem me dizer se o seu primo foi ou não vacinado.

JESSÉ – Beto, não conte pra Aurélia!…- Eu mesmo levei o primo prá vacinar. Não quis ficar, depois, com a consciência pesada.

BETO – Sei!!!… Até a próxima chuva!

JESSÉ – Até!  (SAEM)

 

Avalie

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *