Teatro em Meio Ato
A LONA DO CIRCO BONANÇA
Paulo Corrêa de Oliveira
(CENA NO PICADEIRO DO CIRCO: DUAS IRMÃS, CÍNTIA E LÍGIA, CONVERSANDO COM TITO. MAIS TARDE ENTRA EM CENA: VENDEDOR)
CÍNTIA – Eu acho que a nova lona do circo deve continuar na cor laranja.
LÍGIA – Eu digo que sou contra! Deve ser lilás.
TITO – Vocês nem parecem duas irmãs! Por que essa discussão diária sobre a cor da lona?
CÍNTIA – Eu falo pra Lígia que a lona deve continuar com a cor que nosso falecido pai escolheu para ela: laranja!
LÍGIA – Ora, Cíntia! Os tempos são outros! O Circo Bonança, com a cor lilás, vai representar uma inovação, uma modernização necessária. Você, que se diz mágica, deveria adivinhar que o público prefere sempre inovar
CÍNTIA – Você, que é trapezista, deveria saber também que a cor lilás ou roxa provoca uma influência de luto, de desgraça no circo. Basta já nossa péssima situação econômica. Administramos um circo quase falido.
TITO – O vendedor da Casa das Lonas deve estar chegando para fechar o pedido da lona. A troca é urgente. A qualquer hora pode desabar tudo sobre a cabeça do povo.
LÍGIA – Eu não mudo minha opinião! Cíntia é uma ilusionista. Pensa que o Mágico de Oz, seu marido, não sabe do seu caso com o Baixinho do “globo da morte”? Ele bem que sabe! Só não fala para não perder o emprego. Eu me calo porque não tenho nada com isso. Eu sou pela lona lilás, e pronto! Fico no meu canto!
CÍNTIA – Não se dê como moralista! Eu sei que você, Lígia, vive como se fosse casada com o baterista do circo, mas, tem caso com aquele garoto que lida com os leões. Eu também não mudo minha opinião, a lona deve ser laranja, e acabou a história!
TITO – Que é isso? Eu sou palhaço, mas vocês, duas irmãs brigando, me fazem ficar muito triste. Por causa dessas duas malditas cores, o mundo do circo foi contagiado e se dividiu todo.
LÍGIA – Cíntia, nossa mãe concordou comigo: foi a lona laranja que derrubou nosso pai do trapézio. Devemos esquecer o laranja e mudar para o lilás.
CÍNTIA – A lona foi culpada pela morte do nosso pai? Mamãe nem raciocina mais. Com a doença, está em outro mundo. Não faça uso da mentira, Ligia, para ganhar o circo.
LÍGIA – Eu sei que você está dominada pelo Baixinho do “globo da morte’’ que quer a cor laranja. Sei também que o Magico de Oz, que você deveria ouvir por ser seu marido, é pelo lilás.
CÍNTIA – Lígia, eu não sigo a vontade de nenhum homem. Você é que se encantou com o rapazinho que usa aquela camisa lilás brilhosa e espalhafatosa na jaula dos leões.
LÍGIA – Você pare de falar desse rapaz! Eu não tenho nada com ele! O rapaz é noivo da menina que faz contorcionismo.
CÍNTIA – Não disfarce! Lá de cima do trapézio eu vejo tudo, principalmente uma camisa brilhante e lilás entrando no seu camarim…
TITO – Credo, gente! Temos que chegar a um acordo antes do vendedor chegar. Não é possível ver duas irmãs se agredindo por causa de uma cor.
LÍGIA – Tito, você até agora não falou nada. Dê sua opinião sobre a cor da lona: laranja ou lilás?
TITO – Eu assumi faz pouco tempo meu papel de palhaço. Sou novo no circo. Não quero me expor à toa. Vamos aguardar o vendedor da lona que tem mais conhecimento da harmonia das cores para definir uma posição definitiva.
VENDEDOR – (Entrando) Desculpe o atraso. Vocês me chamaram para comprar uma nova lona para o Circo Bonança?
TITO – Isso mesmo! O problema é a cor da lona. Lígia quer a cor lilás e Cíntia a cor laranja. O senhor veio para desempatar! Laranja ou lilás?
VENDEDOR – Sinto muito, mas, na nossa loja só existe a lona branca em estoque.
TITO – Graças a Deus! O senhor evitou que o circo pegasse fogo. O Circo Bonança vai ser branco: BRANCO!!!…
CÍNTIA – Eu me conformo!
LÍGIA – Eu também!
